quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CONSULTÓRIO | Higiene íntima feminina

A higiene genital feminina é um tema muito importante, uma vez que facilmente se cometem erros, principalmente se tivermos em conta que há muita desinformação sem grande fundamento por este mundo fora. Deste modo, decidi fazer esta publicação no sentido de informar correctamente sobre o assunto, de acordo com orientações fundamentadas na investigação científica.

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O que é a higiene íntima (feminina)?
Define-se como as práticas de asseio da região ano-genital da mulher, no sentido de a manter livre de humidade e resíduos (urina, fezes, fluidos), prevenindo eventuais infecções ou desconforto.

O pH normal da vulva é ácido, variando entre 3,8 e 5,9,  e altera-se ao longo das várias idades e das várias fases do ciclo menstrual, dependendo do nível hormonal, da presença de lactobacilos (bactérias boas e protectoras) e de ácido láctico. A manutenção do pH ácido nesta região é fundamental na prevenção e controlo de doenças, pelo que a sua alteração, pela oclusão e uso de produtos alcalinos, facilita o aparecimento de infecções, prurido, irritação e/ou inflamação.

Existem vários factores extrínsecos (externos ao nosso corpo) que podem interferir com o bem-estar genital feminino e, em certos casos, estes podem ter influência no desenvolvimento de alguns distúrbios genitais: actividade sexual, alimentação, vestuário, hábitos de higiene, utilização de pensos diários, medicamentos, entre outros. O nosso estado hormonal e emocional pode também interferir com o bem-estar.


Dicas importantes
1. Conhecer a própria anatomia
Não há nada mais importante do que conhecermos o nosso corpo. Não é fácil observarmos a nossa própria região genital, mas podemos fazê-lo com a ajuda de um espelho! Se o fizermos regularmente podemos perceber facilmente se existem alterações.
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2. Saber "o que lavar"
As zonas que devem ser lavadas são o monte púbico, a pele da vulva, a raiz das coxas, a região perianal (ânus e "arredores") e o interior dos grandes e dos pequenos lábios (incluindo os sulcos entre os lábios e a região prepucial, ou seja, o clítoris). Não se recomenda a introdução de água e/ou outros produtos no interior da vagina (lavagens ou duches vaginais).

3. Saber como lavar
Podem achar que a técnica de higiene tem pouca importância, mas a verdade é que esta pode ter alguma influência no desenvolvimento de infecções genitais. As regiões descritas no tópico anterior devem ser higienizadas com água corrente tépida (evitar água demasiado quente) e com produtos de higiene adequados, fazendo movimentos suaves e que evitem trazer o conteúdo perianal para a região vulvar. Não utilizar gel de banho ou sabonete com perfume para evitar irritação local.
A região genital deve ser seca cuidadosamente com toalhas secas e limpas, que não agridam a pele, e sem esfregar.
O tempo de higiene genital não deve ser superior a dois a três minutos, para evitar a secagem excessiva local.

4. Frequência diária de higienização
Depende do clima, biótipo, actividade física e doenças associadas de cada mulher. De acordo com esses factores, a frequência adequada poderá variar entre uma a três vezes por dia. Na menopausa, uma vez que o epitélio tem menor espessura, recomenda-se lavar, no máximo, duas vezes por dia, utilizando produtos próprios com pH próximo do fisiológico, para evitar maior secura e desconforto.
Higiene após o contacto sexual: a higiene após as relações sexuais é muito importante, no sentido de evitar infecções indesejadas. Logo após o contacto íntimo deve tentar-se urinar para evitar o surgimento de infecções urinárias e posteriormente procede-se com a lavagem da região genital, como foi descrito anteriormente (com água e produto adequado para higiene íntima). Mais uma vez, as lavagens/duches vaginais não estão recomendados. Em caso de secura ou irritação durante o acto sexual, deve utilizar-se um lubrificante sem substâncias químicas irritativas (utilizar um lubrificante de base aquosa). O preservativo pode ser importante para evitar o contacto do esperma com os genitais, no sentido de diminuir o ardor e a irritação após a relação sexual.

5. Tipo de produto
Devem utilizar-se produtos próprios para a higiene íntima, que sejam hipoalergénicos, com adstringência suave e pH ácido (idealmente entre 4,2 e 5,6). Deve dar-se preferência aos produtos líquidos, uma vez que os produtos sólidos podem ser demasiado abrasivos (e geralmente apresentam pH demasiado alto). Não utilizar o vulgar sabão "azul e branco"!

6. Hidratação local
Possivelmente o passo mais negligenciado da higiene íntima, a hidratação da região genital revela-se importante principalmente após a menopausa, altura em que a pele tende a tornar-se mais seca. Devem utilizar-se hidratantes em gel ou cremes vaginais de base aquosa, com pH ácido e compatíveis com a mucosa vaginal (podem conter glicóis e ácido láctico).

7. Utilizar roupa respirável
A roupa que utilizamos deve favorecer a ventilação local (algodão) e a roupa demasiado justa ou apertada deve ser evitada. É importante trocar as roupas íntimas diariamente. Os fatos de banho molhados e o vestuário utilizado durante a prática de actividade física devem ser trocados o mais rapidamente possível. 

8. E durante a menstruação?
Nesta fase, a higiene deverá ser mais frequente, para aumentar a remoção mecânica dos resíduos menstruais e reduzir a humidade prolongada. Alguns factores durante a menstruação aumentam a probabilidade de irritação vulvar: sangue menstrual, maior produção de secreção sebácea, sudorípara e glandular e uso prolongado de pensos higiénicos com película plástica externa e/ou perfume. Os pensos higiénicos desodorizantes não devem ser utilizados; os tampões são seguros, desde que mudados com frequência.

Outras coisas a evitar
Sprays, perfumes, talcos ou lenços humedecidos. A utilização sistemática de penso higiénico diário não é recomendada - no caso das mulheres com excesso de transpiração ou incontinência urinária, é importante manter a região genital seca recorrendo ao uso de pensos higiénicos transpiráveis (sem película plástica) ou outro vestiário absorvente adequado; nestes casos, pode ser importante trocar a roupa interior a meio do dia.


Produtos para higiene genital feminina
Existem diversos produtos nesta área, que podem ser divididos de acordo com a sua função: agentes de limpeza, hidratação, protecção e facilitação das relações sexuais. Vou focar-me apenas nos produtos de limpeza.
Os agentes de limpeza não têm como função eliminar todas as bactérias da região genital (uma vez que esta região tem uma flora vaginal própria e protectora), mas sim garantir a eliminação de resíduos e secreções. Os produtos de limpeza são essenciais, uma vez que a água não é suficiente para garantir uma limpeza completa. É importante escolher produtos com detergência suave, isto é, que formem pouca espuma, uma vez que estes afectam menos a barreira cutânea. 
Como já disse, devem ser utilizados apenas externamente e não são indicados para fazer lavagens vaginais.

Os sabões comuns são quase sempre sólidos, têm boa detergência, bom poder emulsificante e produzem bastante espuma, mas têm pH alcalino, que pode destruir a camada superficial lipídica da pele, originando secura excessiva. Os sabões transparentes (glicerina, por exemplo), podem absorver água em excesso para fora da pele, causando potencialmente mais secura e irritação. Para compensar estes efeitos, muitas vezes as marcas associam outros componentes humidificantes aos sabonetes (óleos vegetais, lanolina, pantenol...) ou ácidos gordos (deixam um fino filme lipídico na pele, com a função de protegê-la). Os sabonetes alcalinos não são indicados para a higiene íntima, uma vez que criam condições desfavoráveis à multiplicação dos lactobacilos (as nossas bactérias boas e protectoras). Os produtos em barra também não são uma boa opção, por serem demasiado abrasivos.

Os sabões íntimos podem incorporar algumas substâncias benéficas para a área genital: ácido láctico (acção hidratante e regulador do pH), alfabisabolol, extracto de maçã, aveia (anti-irritantes), alantoína, pantenol (regeneradores e protectores), polidocanol (anti-prurido), piroctonolamina (anti-séptico), entre outros. Podem encontrá-los em diversos formatos:
- Gel: são constituídos por uma fase aquosa, com pouca ou nenhuma quantidade de lípidos. Normalmente o seu uso é agradável, pela sensação de frescura. 
- Toalhetes humedecidos: podem ser úteis em algumas situações (higiene fora de casa, WCs públicos, etc.), mas o seu uso não deve ser abusivo, pelo risco de poderem remover o filme lipídico da pele. Podem ser sensibilizantes, pelas substâncias que contêm (perfume, por exemplo). Devem ser utilizados suavemente.
- Sabonete em barra: são utilizados com frequência, tanto pela tradição como pelo seu preço acessível. Como são alcalinos, podem promover secura e diminuição da acidez local. É necessário ter em atenção o facto de poderem muitas vezes ser partilhados em meio familiar, o que aumenta o risco de contaminação.
- Sabonetes líquidos íntimos: na maioria dos casos são à base de ácido láctico, por este ser um componente natural da pele, podendo conter outras substâncias benéficas. O seu principal atributo é manter o pH mais próximo do ideal para o desenvolvimento e manutenção das células da pele.

Já há muitos anos que utilizo a marca Lactacyd, mais concretamente a versão Gel para higiene íntima diária, que peca apenas por ter perfume. É suave, não arde, não causa irritação e não me deixa desconfortável. Todos os produtos Lactacyd, tal como o nome indica, são enriquecidos com ácido láctico semelhante àquele produzido pelo nosso corpo, para além de terem um pH adequado, o que ajuda a manter o pH local equilibrado.
Descobri há pouco tempo que a marca tem outras versões disponíveis (suponho que seja coisa relativamente recente): Sensitive (para quem tem a zona íntima sensível ou mais propensa a irritações), Antiséptico (reforça as defesas naturais da zona íntima, sendo indicado especialmente para grávidas, pós-parto ou em situações de risco acrescido, como a prática de natação, uso de roupas apertadas, etc.), Hidratante (indicado durante a menopausa e pós-menopausa, ou quando há tendência para secura vaginal), Suavizante (acalma e atenua os sintomas de desconforto vaginal associados a infecções e irritações, como comichão, ardor e vermelhidão).



A Omega Pharma enviou-me a versão Sensitive, que é formulada com um sistema de limpeza extra-delicado e sem perfume, para garantir que é o mais delicado possível, minimizando a hipótese de causar irritações locais. É super suave, faz pouca espuma e não tem perfume, tudo características que devemos procurar no nosso produto de higiene íntima.

Espero que esta publicação tenha sido útil!
Por fim, sempre que se notar alguma alteração na região genital, tais como cheiro diferente, corrimento, prurido (comichão) ou ardor, o mais adequado é recorrer ao médico de família ou ginecologista, porque podem ser sinais de doenças que necessitam de tratamento adequado e dirigido.
Nota: o Lactacyd foi-me enviado pela Omega Pharma, mas esta publicação não é paga e o facto de o produto ter sido enviado não influencia a minha opinião.

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