quinta-feira, 18 de maio de 2017

CONSULTÓRIO | Implante contraceptivo subcutâneo (tudo o que precisam de saber)

Vi ontem o vídeo de uma YouTuber (Sofia Oliveira) a contar a sua experiência sobre a colocação do implante contraceptivo e vi algumas dúvidas nos comentários, pelo que decidi aproveitar este tema e os meus conhecimentos sobre o assunto para vos deixar aqui todas as informações que acho relevantes sobre este método contraceptivo.



O que é?
É um método contraceptivo hormonal de longa duração, que contém 68mg do progestativo etonogestrel e que actua libertando uma pequena quantidade de hormona para a corrente sanguínea. Esta hormona evita a gravidez de três formas: impede a ovulação, provoca o espessamento do muco cervical, dificultando a entrada dos espermatozóides no útero e diminui a espessura do endométrio.
O dispositivo tem a forma de um pequeno bastonete flexível com cerca de 4cm de comprimento e 2mm de diâmetro (a mim faz-me lembrar um fósforo sem a pontinha vermelha) e é colocado na parte interna do braço, onde mantém a sua eficácia durante 3 anos.
Cá em Portugal só existe um implante e o seu nome comercial é Implanon NXT®


Quem pode usar?
▪ Quem pretenda um método de longa duração e reversível;
▪ Mulheres a amamentar;
▪ Mulheres com dificuldade em manter a rotina de tomar um comprimido diariamente sem esquecimentos;
▪ Contra-indicação/intolerância aos estrogénios.


Contra-indicações
O implante está contra-indicado em algumas situações, pelo que não deve ser utilizado se existir alguma das seguintes situações:
▪ Alergia a algum dos componentes presentes no implante;
▪ Gravidez ou suspeita de gravidez;
▪ Presença ou história de neoplasias hormonodependentes (cancro da mama ou dos órgãos genitais);
▪ História de enxaqueca com aura em qualquer idade (é importante dizer que há muita gente que diz que tem enxaqueca sem ter!);
▪ Distúrbio tromboembólico activo, isto é, formação de coágulos em algum vaso sanguíneo - trombose venosa profunda (normalmente nas pernas) ou embolia pulmonar (nos pulmões);
▪ Continuar este método contraceptivo em mulheres com doença cerebrovascular (AVC) ou coronária (enfarte) está contra indicado;
▪ Presença ou história de doença hepática aguda, crónica activa ou tumor hepático;
▪ Presença de hemorragia vaginal inexplicável;
▪ Mulheres que não aceitam irregularidades do ciclo menstrual.


Eficácia
Vamos deixar bem claro que não há nenhum método contraceptivo 100% eficaz a não ser a abstinência sexual. O implante tem uma eficácia superior a 99% e esta não é afectada por tantos elementos como a pílula. Posso falar-vos sobre a eficácia de outra forma: com o implante, ocorrem 0 a 0,1 gravidezes por cada 100 mulheres utilizadoras deste método por ano; se quiserem comparar, com a pílula combinada esse número sobe para 0,1 a 1 gravidez e com a pílula progestativa (vulgarmente conhecida como pílula da amamentação) ocorrem 0,5 a 1,5 gravidezes por cada 100 mulheres a utilizar esse método.
Existem alguns medicamentos que podem diminuir o seu efeito, que incluem aqueles utilizados no tratamento de: epilepsia (por exemplo, primidona, fenitoína, barbitúricos, carbamazepina, oxcarbazepina, topiramato, felbamato), tuberculose (por exemplo, rifampicina), infeções por VIH (por exemplo, ritonavir, nelfinavir, nevirapina, efavirenz), outras doenças infecciosas (por exemplo, griseofulvina), tensão arterial elevada nos vasos sanguíneos dos pulmões (bosentano), humor depressivo (produtos medicinais à base de erva de S. João [hipericão - Hypericum perforatum]).
A eficácia diminui em mulheres obesas (neste caso, por vezes opta-se por utilizar o implante apenas por 2 anos, em vez de 3).


Vantagens
▪ Método eficaz, seguro, prático e de longa duração;
▪ A principal vantagem, de longe, é o facto de não exigir o compromisso diário da mulher - o implante está lá a funcionar durante 3 anos, não havendo os tão frequentes esquecimentos que acontecem com as pílulas em comprimidos;
▪ É um método reversível - a fertilidade volta ao normal pouco depois da sua remoção;
▪ Pode ser utilizado em qualquer idade, independentemente de a mulher ter tido filhos ou não;
▪ Pode ser utilizado durante a amamentação (a substância hormonal é da família daquela existente na conhecida "pílula da amamentação") - normalmente inicia-se 1 mês após o parto;
▪ Pode ser utilizado pela maioria das mulheres que não podem (ou não querem) utilizar métodos contraceptivos com estrogénio;
▪ Melhora as cólicas menstruais;
▪ Como esta hormona não necessita de ser absorvida pelo sistema digestivo, a sua eficácia não diminui em caso de vómitos ou diarreia (como acontece com as pílulas em comprimidos);
▪ Contrariamente à pílula combinada, o implante pode ser utilizado em mulheres fumadoras com mais de 35 anos que fumam mais do que 15 cigarros por dia (embora a decisão mais sensata seja mesmo deixar de fumar!).


Desvantagens
▪ Pode causar irregularidades menstruais. Esta é a principal desvantagem deste método e é extremamente variável de pessoa para pessoa - algumas ficam sem período completamente (amenorreia), outras vão tendo algumas perdas em pequenas quantidades imprevisíveis (spotting), outras podem ter hemorragias frequentes. [Um estudo de 2008 demonstro - amenorreia em 22,2% dos casos, hemorragia infrequente em 33,6%, hemorragia "normal" em 19,8%, hemorragia frequente em 6,7% e hemorragia prolongada em 17,7%]
▪ Algumas mulheres referem aumento de peso (é importante fazer uma alimentação saudável e tentar comer a mesma quantidade de alimentos que comiam anteriormente) - mas também há aquelas que dizem que perderam peso com o implante...
▪ Pode ter outros efeitos secundários: dor de cabeça, dor e/ou tensão mamária, acne, variações do humor, náuseas, diminuição da líbido (tudo coisas que podem acontecer também com as pílulas vulgares). Os efeitos secundários são extremamente variáveis de pessoa para pessoa, como acontece com todas as pílulas - já devem ter ouvido imensas pessoas a dizer que se deram mal com uma pílula e vocês até se deram bem com ela! Uma hipótese é fazer uns meses da pílula da amamentação antes da colocação do implante, para tentar perceber como reage o corpo a um método hormonal apenas com um progestativo.
▪ Podem surgir alguns quistos nos ovários (que geralmente não exigem tratamento);
Não protege contra infecções sexualmente transmissíveis (só o preservativo o faz e tem que ser utilizado antes de qualquer contacto sexual)


Colocação
O implante pode ser colocado em qualquer altura do ciclo, desde que se tenha certeza de que não existe uma gravidez em curso. Idealmente, deve ser colocado até ao 5º dia da menstruação, o que confere protecção imediata após a colocação. Caso seja colocado noutra fase do ciclo que não a ideal, é necessário utilizar protecção adicional não hormonal (preservativo) durante pelo menos 7 dias após a colocação.
Já coloquei vários implantes (não em mim, mas noutras pessoas!) e o processo de colocação é bastante simples. Normalmente o implante é colocado superficialmente por baixo da pele, na parte interna do braço não dominante da mulher (maioria das vezes no braço esquerdo), após desinfecção da pele e anestesia local e com a ajuda de um dispositivo próprio. Não demora mais do que 5 minutos e não é necessário levar pontos.
Após a colocação é colocado um penso e uma ligadura; o penso deve ser mantido durante cerca de 3 dias (sem ser molhado) e a ligadura costuma retirar-se no dia seguinte. Dependendo da sensibilidade de cada pessoa, pode haver um hematoma local (nódoa negra) durante uns dias. É suposto sentir-se o implante quando se toca na região onde ele foi colocado, mas não se nota nem se sente sem ir lá mexer.
É normal haver algum período de irregularidade inicialmente, que pode depois regularizar passados 2 ou 3 meses.

Dispositivo de inserção do implante



Remoção
Após a colocação do implante receberão um pequeno cartão que indica, entre outras coisas, a data em que deverão removê-lo. A eficácia do implante não se perde logo naquele dia em que faz 3 anos, mantendo alguma margem para ser retirado sem comprometer a eficácia. 
A remoção pode demorar um pouco mais do que a colocação, uma vez que se cria algum tecido fibroso à volta do dispositivo (o organismo reage contra corpos estranhos). Sente-se o implante com os dedos, dá-se anestesia local e faz-se uma pequena incisão na zona onde está o implante e é removido com a ajuda de uma pinça.
Caso pretendam manter o mesmo método contraceptivo, na mesma altura em que se remove o implante, coloca-se logo um novo pela mesma incisão da pele e ficam protegidas durante mais 3 anos.
O implante pode ser retirado em qualquer altura (mesmo sem ter completado os 3 anos), se for esse o desejo da mulher.




Preço
Quando colocado no âmbito da consulta de Planeamento Familiar dos centros de saúde, a colocação do implante é gratuita. Na realidade, os implantes custam mais de 100€ (são daquelas coisas "gratuitas" que todos pagamos nos nossos impostos) pelo que, caso não pretendam usufruir do seu efeito durante 3 anos (por exemplo, se quiserem ter filhos daqui a 1 ano) ou caso não consigam tolerar sequer a ideia de ter irregularidades menstruais, talvez devam optar por outro método. Para além disso, se não quiserem utilizar nenhum método com hormonas, este também não é o mais indicado para vocês.

Tentei focar-me nos pontos essenciais, mas sei que estas coisas dão sempre lugares a muitas dúvidas. Por isso, se tiverem alguma dúvida não hesitem em perguntar nos comentários! Cá estarei para responder.

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